Arquivo da tag: rolezinhos

os “rolezinhos” e a reação idiota.

idiota

Um acontecimento envolvendo Chico (Buarque) e (Gilberto) Gil é emblemático da ignorância abissal que era a marca dos censores a serviço do regime militar. Há registros, alguns engraçados até, de que a função de censor, de um modo geral, era desempenhada por monumentais cavalgaduras. Em composições musicais, publicações ou textos noticiosos previamente censurados, sabe-se hoje que as palavras “vermelho” e “esquerda” estavam entre as preferidas para disparar o gatilho da censura, ainda que o contexto determinasse se tratar do nome de uma cor ou de uma direção apenas. Isso no campo político, porque havia a preservar, ainda, a “moral e os bons costumes” como valores da tradicional família brasileira – branca, patriarcal, católica e de classe média, tudo o que a maioria dos brasileiros não eram. Daí sobrou até para propaganda de absorvente íntimo (http://migre.me/hAkGn).

Pois bem, a postura de algumas autoridades e dos donos de shopping centers diante dos chamados rolezinhos remete à triste lembrança daqueles tempos pelo manancial de estupidez que tem revelado. Soube há pouco, por exemplo, que o Shopping Iguatemi, de Brasília, fechou suas portas neste sábado porque havia sido anunciado um rolezinho cuja maioria dos organizadores declarados são ex-alunos da UnB. Por que atitudes como essa são estúpidas? Porque ajudam a politizar o que, em sua forma original, não tinha a pretensão de ser uma ação política – por mais que o seja, pela carga simbólica que projeta. Não sei explicar porque os rolezinhos se tornaram fenômeno social; quero dizer, não sei exatamente o que levou, no princípio desses acontecimentos, jovens pobres das periferias de São Paulo a decidirem se reunir nos centros tradicionais de consumo da classe média alta para ouvir funk, paquerar e se divertir. Mas, se perguntarmos a qualquer rolezeiro autêntico os motivos, duvido que ouviremos que se trata de um “enfrentamento aos valores” dos que habitualmente frequentam os shoppings ou de “um grito em favor da inclusão social”. É diversão. Ou era. E diversão pacífica; não houve nenhum registro de vandalismo, e atos de hostilidade, se houveram, foram provocadas pela forças privadas de segurança dos shoppings, ou pelas forças de segurança pública na repressão àqueles jovens. Portanto, o potencial “explosivo” dos rolezinhos foi conferido pela reação que provocaram em proprietários, autoridades e cidadãos cujos temores nascem dos próprios preconceitos.

Mas a explicação para esse tipo de reação torna tudo ainda mais cruel. Acaso a vontade de lojistas e proprietários seria a de excluir do consumo – e, portanto, das fonte de renda para seus próprios negócios – parcela tão significativa da população, a chamada “classe C” à qual pertencem, por critérios de renda, a maioria dos jovens que organizaram os primeiros rolezinhos? Penso que não. Também não se trata de receio quanto a possibilidade de furtos ou depredação de seu patrimônio; essa é outra esparrela, pois estão abrigados em espaços altamente vigiados, com pessoal e tecnologia suficiente para coibir tais ações, se efetuadas no contexto dos rolezinhos. O que os inquieta, de fato, é que conhecem bem a índole do público que se habituaram a atender nos chamados shoppings de alto padrão: cidadãos que se consideram exclusivos, e com direitos que são só deles, portanto. Quem pode pagar para sentir-se, aristocraticamente, único, não quer ver gente pobre e comum num espaço que sempre foi exclusividade sua. É isso. Incomodam porque são pobres, porque são negros e porque são jovens que se comportam “mal”. Esse público é que encoraja proprietários a fecharem suas portas até que a turba passe e pressiona autoridades para que reprimam esses jovens. Tais reações reforçam uma convicção que tenho: a elite brasileira é uma das mais incultas do mundo. Se eu fosse dono de um shopping center desses, conclamaria jovens de todas as classes a fazerem um rolezinho em meu estabelecimento. Eu os apoiaria na organização, inclusive. Bom, acho que até por isso nunca serei dono de nada, muito menos de shopping center.

Por fim, o episódio a que me referi, sobre a censura, deu-se num evento organizado pela Polygram, nos anos 70. Num festival em celebração a não sei quantos anos de fundação da gravadora, seus artistas contratados Chico e Gil, ignorando advertência do censor presente, programaram executar “Cálice”, canção proibida pela ditadura. Quando a banda atacou os primeiros acordes e Chico os primeiros versos, o gendarme de plantão simplesmente mandou cortar o microfone. O técnico de som obedeceu, silenciando, no entanto – e, talvez, tendo combinado a performance com os artistas – apenas o microfone que estava sendo utilizado. Com isso, Chico foi trocando de microfone até que todos estivessem calados por ordem do censor. E isso transformou em imagem concreta a letra da música. Na prática, a atitude do censor tornou “cale-se!” o “cálice”. É isso: as reações fundadas no preconceito dão aos rolezinhos a conotação política que não tinham.

Etiquetado , , ,