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Não vai ter ponte?

Por enquanto, fico com o relato do DCM (Diário do Centro do Mundo) sobre o incêndio do fusca do Seu Itamar (impossível resistir ao xiste dessa coincidência); não me parece verossímil que alguém tenha pensado “vou atear fogo àquele carro em movimento, com gente dentro, para protestar contra a Copa”. Não acho que tenha sido isso. Não estava lá, portanto tenho de optar por uma das versões disponíveis. Escolho acreditar nesta, até que haja prova em contrário: manifestantes armaram uma barricada; nela, atearam fogo a um colchão; seu Itamar vinha com a família em seu fusca e passou ali bem na hora da confusão; achou que seria possível arrancar com o carro por sobre as chamas sem incorrer em maiores riscos a si e à sua família; deu-se mal, pois o colchão enroscou-se em uma das rodas e o resto da história todos conhecemos. E acredito inclusive que, visto o tamanho da lambança que poderia ter dado em tragédia, alguns dos manifestantes tenham realmente tentado – se arriscando até – ajudar a família de seu Itamar a sair de dentro do carro em chamas.

Isto posto, acreditando nessa versão que me parece bastante plausível, condeno ainda assim – e somente no nível de minha convicção pessoal, que é a única jurisdição sob a minha autoridade – a ação de black blocs e assemelhados. E penso que deveria servir de alerta aos que incitam – sempre do conforto das redes sociais – ações como essa. Não façam, os que defendem a tática black bloc, comparações estapafúrdias como as com a Intifada, por exemplo. Uma coisa é a legitimidade da luta de um povo pela defesa de seu território legítimo, de seu direito de continuar existindo enquanto nação e, sobretudo, se essa luta, estendida para o campo físico, é a forma que resta de resistência; outra é querer fazer da violência insana e desmedida um instrumento de luta política num estado democrático e num contexto de liberdade de manifestação e expressão. Portanto, não confundam luta com violência; esta não tem legitimidade, nem valor estético, como a primeira. A ação pôs em risco a vida dessa família e dos próprios manifestantes. Se não “tocaram fogo no fusca”, como precipitadamente alardearam alguns, têm culpa pelo carro incendiado os que atearam fogo num colchão em plena avenida para simular sua “intifada contra a Copa”. Nenhum cuidado tiveram com os direitos do seu Itamar. Pouco respeito tiveram por vidas alheias ao colocá-las em risco.

Agora, o outro caso trágico: um jovem manifestante levou três tiros de policiais e está internado em estado grave. A violência não tem legitimidade. Nem valor estético. Nem político. Não tem para aqueles manifestantes que causaram o incêndio do fusquinha. Não tem para policiais que tratam manifestantes como bandidos. E nada a justifica. Três tiros?! Um no peito. Para quê? “Imobilizar” o rapaz que, na versão dos policiais, ameaçava a integridade de um deles com um estilete? Eu desejo, profundamente, que esse cidadão sobreviva e que esse acontecimento não lhe demova de lutar por aquilo em que acredita, ainda que eu quisesse, também, que ele revisse seus métodos de ação. Os policiais devem responder por esse atentado aos direitos humanos – pois mesmo em sua versão do ocorrido, não parece que a vida de um deles estava em risco a ponto de que fosse necessário acabar com a vida do agressor. O Secretário de Segurança de SP já foi a público dizer que a ação dos policiais é legítima, mas que vai “apurar o caso e, se ficar provado que houve excesso…” Poucas coisas exasperam mais que esse tipo de declaração padrão. Três tiros, um no peito, é pra matar. Era o caso?!

Uma vez mais, o alerta: não é toda essa situação gerada nas manifestações de 25 de janeiro, em especial esses dois episódio, uma mostra da “tempestade perfeita”, anunciada e ansiada por colunistas que escrevem em nome de agentes políticos vinculados com o pensamento mais reacionário? Que ninguém finja que não é, portanto, por mais que se considere de esquerda. O slogan “Não Vai Ter Copa” não podia ser mais autoritário. E as mobilizações em torno dele, até agora, não podiam ter dado maiores provas de que se trata de um movimento orientado (e não dirigido propriamente) por minorias políticas autoritárias. Contudo, a hora é de serenar ânimos e abrir os diálogos possíveis. É disso que deveríamos, todos os interessados, tratar agora.

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