Entrevista ao Blog Juventude em Pauta

http://juventudeempauta.blogspot.com/2011/01/carlos-odas-que-brasil-queremos-e-o-que.html

Carlos Odas, o Carlão, como é conhecido, nasceu em 1973, na cidade de Lins, interior de SP, mas cresceu em Santo André, no ABC Paulista. Brinca com essas referências, ao mencionar que o primeiro documento a falar da necessidade de se criar um “Partido dos Trabalhadores” é a “Carta Lins-Santo André”, resultado de um congresso de trabalhadores metalúrgicos no ano de 1978. Ele conta que acordou para a política por meio do movimento estudantil secundarista, tendo sido eleito presidente do grêmio estudantil e diretor da UMES-Santo André. Filiou-se ao PT em 1994, foi secretário municipal de juventude do partido, depois Secretário Nacional de Juventude e membro do Diretório Nacional do PT (1999/2001). Em 2004, participou, no Instituto Cidadania, da equipe que organizou o Projeto Juventude. Tomou posse num cargo público pela primeira vez em 2005, quando foi convidado a integrar a Secretaria Nacional de Juventude, na Secretaria-Geral da Presidência da República, onde atua como assessor até hoje.

Nessa entrevista, feita por viva-voz, ele avisou “não me arvoro a falar em nome de ninguém, muito menos represento uma opinião oficial do governo ou da SNJ, ok?”. Carlão aborda seu balanço da Política Nacional de Juventude, desenvolvida pelo governo do ex-presidente Lula e os desafios de sua atualização, nessa nova etapa que se abre no Brasil com a eleição e posse de Dilma Rousseff, primeira presidenta do País.

CARLÃO – Antes de tudo, deixa eu dizer uma coisa importante: sou um militante da temática de juventude conversando com um amigo e também militante da mesma temática, ok? E quero que você registre isso, porque sempre pode parecer que eu estou falando em nome disso ou daquilo; definitivamente, não. Já que você me fez esse convite, que eu considero uma honra, o que posso fazer é compartilhar as opiniões que tenho sobre esses assuntos, sobre o tema com o qual trabalho faz cinco anos e no qual eu militava antes de estar na Secretaria Nacional de Juventude. Enfim, são opiniões e impressão particulares. Mas, vamos lá…

JUVENTUDE EM PAUTA – Quero falar das atribuições da SNJ…A política nacional de juventude é composta de várias iniciativas, em diversos ministérios, mas a SNJ só executa uma, que é um dos ProJovens, o Urbano. Qual seu balanço dele?

CARLÃO – Na verdade, a Secretaria realiza muitas outras ações, mas o Projovem Urbano é, de fato, o único programa gerido pela SNJ. Apenas para exemplificar essas outras ações, eu mencionaria todo o trabalho na cooperação internacional, a relação com os países do Mercosul nessa temática, a criação de um grupo de juventude no comitê interministerial que trata da Agenda do Trabalho Decente, a realização da etapa das Américas da Conferência Mundial de Juventude, o trabalho com os gestores municipais (feito em parceria com o Fundo de População das Nações Unidas), a Conferência Nacional de Juventude e as grandes atividades do CONJUVE que, comumente , envolvem recursos humanos e orçamentários da SNJ. Quanto ao Projovem, faço dele um balanço positivo em sua ação educacional, de retomada de trajetórias que provavelmente seriam “perdidas” nos processos de exclusão se não tivéssemos o programa; não obstante essa avaliação positiva, lamento que o programa tenha perdido, na atualização do original para o Urbano, algumas das características sem as quais ele se torna muito mais um programa educacional do que de juventude, como a Estação Juventude, por exemplo. Outro aspecto a ser ressalvado são as dificuldades de articulação entre as quatro modalidades do programa. A SNJ, em tese, faz isso por meio do Conselho Gestor do Projovem Integrado; na prática, no entanto, faltaram instrumentos de gestão que efetivassem o papel de coordenação da Secretaria e promovessem uma articulação verdadeira entre as modalidades.

JUVENTUDE EM PAUTA – O ProJovem integrado tinha meta de alcançar 4,5 milhões de jovens, atingiu metade, foi um avanço de fato? Tem que ajustar alguma coisa?

CARLÃO – As metas inicialmente anunciadas eram, de fato, ambiciosas para um programa que, desde a sua concepção, tem de superar a barreira cultural da fragmentação das ações de governo, mas elas cometiam o equívoco de transformar quase a totalidade da demanda detectada em meta física; 4,5 milhões foi, à época, o número a que chegamos, por meio da PNAD, de jovens entre 18 e 29 anos que estavam fora da escola e fora do mercado de trabalho. Um conjunto de políticas alcançou esses cidadãos nos últimos anos – e não somente o Projovem. O que é preciso ver, creio, é que esse cidadão não“existe” apenas sob essas duas condições: situação em relação ao ensino formal e situação em relação ao mercado de trabalho. Ele tem gênero, cor, orientação sexual, naturalidade e mais um sem número de características e condições que vão determinar como a política pública pode ter mais sucesso em alcançá-lo ou significar algo concreto para ele; em suma, não basta dizer “volta comigo pra escola que eu te dou uma qualificação profissional e um auxílio financeiro”. Isso, decerto, vai falar a uma parcela importante, mas não a todos. As trajetórias são múltiplas e não podem ser contempladas com uma única fórmula, assim como as regionalidades são determinantes e não podem ser contempladas com um único modelo.

JUVENTUDE EM PAUTA – Por um decreto presidencial, cabe à SNJ coordenar o ProJovem Integrado, mas existe uma dificuldade evidente no relacionamento, já que o órgão não possui status de Ministério, então é formalmente um relacionando de “comando” de uma hierarquia inferior sobre outras superiores…Isso impacta na ação geral do programa? Como você acredita que se possa alterar essa situação?

CARLÃO – Não acho, sinceramente, que as dificuldades se devam ao status da Secretaria. O PAC foi coordenado durante todo o Governo Lula por uma subchefia da Casa Civil – sem status ministerial, portanto – e, agora, não será, certamente, a única missão do Planejamento; nunca houve um “Ministério do PAC” e não haverá, certo? O que determina, de fato, o grau de dificuldade, porque dificuldade sempre haverá na gestão de um programa que recorre à ação de distintas áreas de governo, é a centralidade do tema na agenda desse governo. E os atores políticos todos reconhecem se essa centralidade existe ou não e em que grau, pode estar certo disso. No caso específico, leve em conta, ainda, tratar-se de programas que já existiam coordenados por seus respectivos ministérios. O Agente Jovem transformou-se no Projovem Adolescente; ações bem sucedidas do extinto PNPE, como os Consórcios Sociais da Juventude, e outros programas do MTE, como o Escola de Fábrica, transformaram-se no Projovem Trabalhador; e o Saberes da Terra é o Projovem Campo. Ou seja, há um determinado momento em que alguém diz: “continue fazendo o que você fazia, mantendo, inclusive, as mesmas responsabilidades sob as mesmas rubricas, mas agora seja coordenado por outra área de governo”. Pode ser que dê certo.

Primeiro é preciso perguntar: que Brasil queremos e o que juventude tem a ver com isso? No lugar disso, estamos sempre fazendo um outro tipo de pergunta, muito diferente desta: o que quer o Brasil dos seus jovens? Em primeiro lugar, portanto, não admitamos nunca que uma política de juventude possa herdar o conceito de tutela protetiva da política de criança e adolescente


JUVENTUDE EM PAUTA – A transversalidade da temática não devia dar conta desse desafio?

CARLÃO – A transversalidade é um conceito caro à política de juventude; de fato, uma política nessa temática terá de abarcar situações que estão no campo de atuação de muitas áreas de governo ou incorrerá no risco de limitar-se a aspectos absolutamente pontuais, sem nunca prestar alguma contribuição significativa ao projeto estratégico de desenvolvimento do país. No entanto, há que se encontrar a “chave” adequada de compreensão e efetivação dessa transversalidade. Eu prefiro dizer, incorporando um conceito da Educação, que a área é multidisciplinar. Há campo de trabalho – e necessidade – de técnicos e especialistas de diversas áreas para construirmos uma área de juventude no âmbito do poder público. O espaço, portanto, da efetivação da transversalidade não se dá a partir de decretos presidenciais ou de gestos de vontade política, por assim dizer; não dá pra dizer que um órgão de governo coordenará um tema e esperar que todas as áreas, tendo suas metas a cumprir, passem a aguardar a orientação desse órgão. Essa “tal” de transversalidade só será um conceito eficaz no espaço onde essas muitas disciplinas que constituem a política se encontrem: na ação concreta, no atendimento de ponta; pra ser mais específico, no território. E tem de ter autoridade política por trás disso, é claro, mas autoridade legítima, que jamais é outorgada, menos ainda no âmbito governamental.

JUVENTUDE EM PAUTA – Em sua opinião, como se constitui essa autoridade e como se dá essa incorporação do território como chave para as ações integradas?

CARLÃO – Primeiro é preciso perguntar: que Brasil queremos e o que juventude tem a ver com isso? No lugar disso, estamos sempre fazendo um outro tipo de pergunta, muito diferente desta: o que quer o Brasil dos seus jovens? Em primeiro lugar, portanto, não admitamos nunca que uma política de juventude possa herdar o conceito de tutela protetiva da política de criança e adolescente, que é válido naquele contexto, mas não no contexto das “PPJs”. Isto posto, a busca de resposta para aquela questão, ajudará a constituir a autoridade política da Política Nacional de Juventude. Veja bem: o conceito de autoridade que emprego aqui deriva de uma outra condição a que eu chamo de “autoria”; é autoridade de autor. O desafio que está posto diante de todas as gerações é aproveitar o melhor possível as oportunidades de desenvolvimento do país. Ao menos em um aspecto, as políticas de juventude devem ser concebidas, por quem constrói a temática, como autoras nesse processo de desenvolvimento: o de vocalizar que desenvolvimento queremos. Quanto mais correspondências as políticas de juventude tiverem com o desafio do desenvolvimento, mas próximas elas estarão do centro estratégico do projeto de país em curso. E mais autoridade política terá a temática junto a outras áreas de governo porque sua importância será mais compreendida pela sociedade.

JUVENTUDE EM PAUTA – Nos debates dos quais participa, você tem destacado o conceito de “geopertencimento”…

CARLÃO – A questão do território tem papel central nesse contexto. Ele é palco e ator ao mesmo tempo, para usar uma imagem miltoniana; o território do ponto de vista físico, onde as pessoas vivem e estabelecem relações de todo tipo, o território enquanto espaço geográfico marcado por uma trajetória particular, ligada à vida daquele povo e, por fim, o território como espaço da mediação entre o poder que não vemos mas que determina muito dos rumos das nossas vidas e o poder que vemos, que nos toca por meio da ação pública, e que deve servir para nos garantir qualidade de vida. Colocar o território como um ente constitutivo da política de juventude será, por exemplo, construir alianças em nível local para monitorar a elevação dos indicadores por meio de um recorte etário, por exemplo. Alianças são fundamentais porque ninguém está propondo que o governo nacional substitua os atores locais, mas seja um instrumento poderoso de geração de sinergia entre eles – prefeitura, organizações, movimentos, gestores, etc. Com o tempo, se vai perceber o seguinte: o indivíduo pode estar rodeado de potenciais equipamentos da política pública e, simplesmente, não ser alcançado por ela.

Teremos de constituir, até os anos 2040, a poupança que vai sustentar o padrão de vida de uma população envelhecida. E isso significa que temos de gerar oportunidades de emancipação para toda a atual geração, que é a geração da transição demográfica no Brasil.

JUVENTUDE EM PAUTA – Legal isso de resgatar clássicos do pensamento brasileiro, como Milton Santos, para nos ajudar nessa fase de refletir concretamente sobre nosso desenvolvimento, que está em curso, e tem os jovens como atores estratégicos…

CARLÃO – Sim, há momentos da nossa História em que o Brasil teve que se pensar. Foi assim nos anos 30, 70 e estamos vivendo isso outra vez, porque são fases de saltos de desenvolvimento. Mas, quero dizer que essa questão do território é uma forma de contrapor um pouco a um certo conceito de “esteira” que permeou a concepção que temos hoje e que, em minha opinião, vê a ação do poder público na vida do cidadão como algo linear, cronológico mesmo: “vamos buscar quem está fora da escola e colocá-lo novamente nessa ‘esteira’, que sai da porta da casa dele, passa pela escola, passa pela formação profissional para alguns ou pela universidade para outros e termina dentro do mercado de trabalho formal”. Essa esteira não existe; trajetórias pessoais não se constituem com essa linearidade. Aos 13 anos eu abandonei a escola, no que a gente chamava de 6ª série; com um amigo da mesma idade, me meti numa aventura de conhecer outro lugar do país, no caso, o Mato Grosso do Sul, vivi uns meses numa cidade chamada Mundo Novo. Quanto mais longe da escola – da minha escola, pra mim, era melhor. Éramos pobres, mas eu não posso acusar que nenhuma condição da minha vida, à época, me obrigasse a abandonar a escola naquele momento; o que houve foi o mais absoluto cansaço de tudo aquilo, da escola. Aprendi tanto fora dela que fui obrigado a reconhecer que o ensino formal me fazia falta e voltei a ela mais tarde. Para essa multiplicidade de trajetórias possíveis, a política pública deve apresentar alternativas também de entrada e saída, compreende? Ela que se adapte à necessidade do cidadão que ela quer resgatar de um processo de exclusão que já lhe foi duramente imposto.

JUVENTUDE EM PAUTA – 52 milhões de jovens (janela demográfica) e pré-sal formam o pavio do nosso desenvolvimento, mas não é automático. Qual a política concreta que pode gerar a combustão?

CARLÃO – O Pré-Sal, a situação econômica do país de um modo geral, a inclusão social promovida pelo Governo Lula, a consolidação do processo democrático, tudo isso, pra nossa sorte, compõe o contexto em que se desenvolverão políticas públicas no país daqui por diante. E é claro que dificuldades também comporão esse cenário. No âmbito das urgências, eu colocaria a necessidade de qualificar o jovem cidadão brasileiro para operar dentro desse contexto de modo a constituir sua trajetória de vida da melhor maneira possível. Isso é formação profissional, educação e renda, basicamente. Mas, de um ponto de vista estratégico, vivemos o momento de tomar grandes decisões sobre qual rumo o país vai seguir em seu projeto de desenvolvimento. Eu pergunto: ao avaliar essa tomada de rumos, é possível ignorar o fato de que temos hoje a maior população jovem de nossa história? E é possível ignorar que a nossa situação demográfica configura o que o IBGE já chama de “bônus demográfico” e qualifica como uma das mais importantes janelas de oportunidade para o desenvolvimento? Teremos de constituir, até os anos 2040, a poupança que vai sustentar o padrão de vida de uma população envelhecida. E isso significa que temos de gerar oportunidades de emancipação para toda a atual geração, que é a geração da transição demográfica no Brasil.

JUVENTUDE EM PAUTA – Os principais resultados da I Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude foi dar mais visibilidade para o Conjuve e possibilitar alguns ajustes na proposta do Plano Nacional de Juventude, que tramita na Câmara…Quais os desafios da II Conferência Nacional de Políticas Públicas de Juventude?

CARLÃO – A 1ª Conferência foi um processo de mobilização que possibilitou aos atores juvenis sentirem-se parte do processo de construção da política; receio, no entanto, se pudemos corresponder, posteriormente, à expectativa gerada pela Conferência. De alguma forma teremos de buscar novamente esse ator e o colocarmos novamente no centro da arena, constituído de poder para apontar novos rumos ao governo. Se eu fizer parte da equipe que erguerá esta segunda edição da Conferência Nacional de Juventude, proporei, novamente, o desenvolvimento como principal ponto de pauta do temário. O lema da 1ª Conferência foi “levante sua bandeira”, ou seja, era um momento de afirmação da pauta e dos atores envolvidos. É preciso ir mais longe agora. Da primeira edição, ficaram as boas experiências de metodologia que precisam ser aprofundadas. A Conferência pode ser instância máxima de elaboração – e não mero espaço de confrontação de demandas; seu principal desafio é construir-se como o lugar de onde os atores, organizações e suas redes falem verdadeiramente a toda a sociedade sobre a importância do tema e convençam, não ao governo, mas a essa mesma sociedade, do quanto perdemos todos se os investimentos que esses atores demandam não forem concretizados.

JUVENTUDE EM PAUTA – Para além do Estatuto e do Plano, existem vários PLs que versam sobre juventude, como o que termina com o serviço militar obrigatório, que facilita o financiamento da casa própria para jovens, que reserva verbas das loterias para incrementar o ProJovem, o que inclui nesse programa jovens moradores de rua, etc…A SNJ acompanha essa iniciativas? Tem opinião a respeito? Pensa uma estratégia para aprovar essa agenda?

CARLÃO – A SNJ faz, na medida do possível, o acompanhamento das questões relativas à juventude que tramitam no Congresso Nacional; mas temos acompanhado, preferencialmente, algumas delas, como a PEC da Juventude, que já foi promulgada, o Plano Nacional de Juventude, o Estatuto, as iniciativas relacionadas à reconstrução da sede da UNE e tramitamos também o processo de adesão do Brasil à Organização Ibero-Americana de Juventude, a OIJ. Registre-se que, por uma questão de tamanho da equipe, apenas um assessor foi designado para acompanhar as ações legislativas. Apesar de, é claro, ele não fazer todo o trabalho sozinho, é impossível que uma pessoa consiga mapear, acompanhar e monitorar todas as iniciativas do Legislativo, que como você mesmo disse, são muitas. A estratégia, aliás, não era acompanhar e aprovar tudo, mas contribuir para o andamento das iniciativas que eu elenquei aqui. O Plano e o Estatuto seguem na pauta, mas uma nova estratégia deve ser formulada com outros pontos que interessem ao Plano de Trabalho da Secretaria para esse novo governo.

O lema da 1ª Conferência foi “levante sua bandeira”, ou seja, era um momento de afirmação da pauta e dos atores envolvidos. É preciso ir mais longe agora. (…) A Conferência pode ser instância máxima de elaboração – e não mero espaço de confrontação de demandas

JUVENTUDE EM PAUTA – Quais os elementos, na sua opinião, que devem nortear uma nova geração de políticas de juventude (precisamos de uma nova geração delas?)? Qual papel a SNJ deve cumprir, em relação à política nacional de juventude, nos próximos 4 anos?

CARLÃO – Acho que apontei algumas coisas já e acho que existe uma agenda de consenso: é preciso aprofundar partindo da plataforma constituída no governo do Presidente Lula, qual seja, a Secretaria com um papel articulador, o Conselho com o papel do diálogo e da participação e o PROJOVEM como experiência de gestão integrada. Avançar sobre essa plataforma, na minha opinião, é dar à Política Nacional de Juventude uma perspectiva de inclusão geracional que ela não tem hoje. Analisado, o conjunto da obra nos revelará que o conceito de políticas de “segunda oportunidade” dominou amplamente o cenário das políticas de juventude em nível nacional, por meio das ações de inclusão social. Esse era o desafio do governo: incluir, incluir, incluir. O objetivo estratégico agora, vocalizado pela Presidenta Dilma, é a erradicação da pobreza extrema. Se se quiser fazer isso no tempo em que se tem determinado por aí que seremos a quinta ou a quarta economia mundial, isso requer um grau de sofisticação da política pública maior até do que o que representou o Bolsa Família, que é uma referência mundial. No caso da juventude, eu sugeriria ampliar o escopo da inclusão que fazemos hoje: além de social, ela deve ser política e cultural. Nesse sentido, é preciso, sim, uma nova geração de políticas. Aliás, deixa eu dizer uma coisa: temos falado em transição geracional; explico: é transitar de uma geração de políticas para outra. E o conceito de geração está aí por ser caro a um debate que vencemos lá atrás, quando a terminologia ainda determinava o entendimento do gestor e dizíamos que queríamos políticas “de/para/com” a juventude. A visão sobre o território como chave de compreensão da transversalidade pode ser uma alternativa de avanço sobre uma outra que determina que o conceito vá se materializar a partir de um comando localizado no “centro” ou “acima”. O lugar de onde se fala é importante, mas o que se diz é mais importante ainda. E é hora de dizer “o que estamos construindo é um novo país, e o papel ativo dessa geração na construção desse projeto tem de estar garantido”. Poder-se-ia iniciar uma nova rodada de pactuação interna com o governo e uma retomada de um diálogo com os movimentos sociais, acadêmicos, enfim, com a rede das políticas de juventude com o intuito de legitimar elaborações mais avançadas, condizentes com os novos desafios.

JUVENTUDE EM PAUTA – Quais as tarefas e o papel das juventudes partidárias e movimentos juvenis nesse contexto?

CARLÃO – As juventudes partidárias foram fundamentais para a consolidação da temática na agenda pública e elas participam do debate desde os primórdios; registre-se que elas foram, muitas vezes, penalizadas por sua forma de expressão e pela escolha individual e absolutamente válida de engajar-se num partido político. Houve um tempo em que falava um indivíduo filiado a um partido e um outro, não filiado mas também engajado no debate político, e, de saída, tinha-se que se devia desconfiar do filiado. As juventudes dos partidos de esquerda vem, em minha opinião, apresentando-se cada vez com mais legitimidade porque cada vez mais envolvidas com um projeto maior que a sua auto-construção. É claramente o caso da Juventude do PT, para falar apenas do partido ao qual sou filiado. O que eu digo sempre é que ainda carecemos de uma plataforma mais ampla de sociedade civil, no caso das organizações e movimentos. Uma arena mais permanente e cujo elemento de ligação esteja mais relacionado aos temas que à política pública, já que, para esse papel, já contamos com o CONJUVE.

JUVENTUDE EM PAUTA – O Pacto pela Juventude foi editado duas vezes, com o modelo de fazer candidatos e autoridades públicas a se comprometerem com políticas de juventude…Nessa nova etapa que deve se abrir esse formato ainda serve? O que vc propõe?

CARLÃO – À época da primeira edição do Pacto, eu o defendi como um processo de capacitação das organizações em nível local para a defesa das políticas públicas, o que em alguns meios se chama “advocacy”; esse foi um aspecto pouco explorado e que acho que ainda pode ter um papel relevante. É claro que provocar os agentes políticos para o debate e comprometê-los com a agenda é extremamente válido, mas acho que agora o Pacto pode evoluir para uma ação que não seja exclusiva do período eleitoral. Por meio do CONJUVE, por exemplo, se pode promover uma ampla capacitação para que as organizações constituam localmente os seus pactos em defesa de políticas para os jovens, por exemplo.

O objetivo estratégico agora, vocalizado pela Presidenta Dilma, é a erradicação da pobreza extrema(…)isso requer um grau de sofisticação da política pública maior até do que o que representou o Bolsa Família(…)No caso da juventude, eu sugeriria ampliar o escopo da inclusão que fazemos hoje: além de social, ela deve ser política e cultural

JUVENTUDE EM PAUTA – Para além da inclusão social da juventude via mercado, no plano cultural, o que fazer para a atual geração ser a base de Brasil desenvolvido em todos os níveis que almejamos?

CARLÃO – Dentro daquele mesmo conceito de território que eu estava expondo pra você, eu imagino nossas cidades como uma miríade de “aldeias”; ao menos, gosto de chamar assim. Por exemplo, uma questão que pode ser levantada é a necessidade de criar um pertencimento maior entre o jovem e seu lugar, a sua aldeia. “De quem é a sua rua? A quem pertence a sua cidade? Esse lugar é seu?” são questões que me inquietam desde sempre. Venho de uma comunidade pobre, a Lamartine, em Santo André. No tempo em que eu tinha de andar à noite por aquelas ruas, quando voltava do trabalho ou da escola, era preciso inteirar-se dos códigos que te faziam um morador da área pra não ser incomodado nesse trajeto. O que eu gostaria é de ajudar a substituir (e acho que estamos fazendo isso) esses códigos. A rua deve ser amigável, o trajeto, o bairro, a cidade. Como fazer isso a partir de uma política nacional? Instrumentalizando os potenciais equipamentos locais e construindo alianças que gerem sinergia que não dependa da sua presença. Os CRAS são equipamentos de política de juventude, nessa visão, assim como as Praças do PAC, a biblioteca e, por que não dizer?, a escola. Tornar “seguro” e pleno de direitos, por meio de um conjunto de ações de política pública, a fase da vida que vai de 15 a 29 anos no Brasil fará desse um país desenvolvido. Manter vivos os jovens e criar as condições para que toda trajetória seja de emancipação é colocar essa geração no centro estratégico do projeto de desenvolvimento.

JUVENTUDE EM PAUTA – Na sua opinião, na macropolítica, qual o impacto que pode ter sobre a sociedade e sobre o governo a declaração do presidente Lula, que incluiu a juventude como uma das 3 prioridades do país (juntamente com a reforma política e a regulação da mídia)?

CARLÃO – Aquela fala do Lula, na última reunião da Executiva do PT na qual ele participou ainda como Presidente, é, a um modo, o coroamento do trabalho de movimentos e organizações que militam no tema juventude porque demonstra cabalmente a existência e importância do tema na agenda pública e, por outro lado, um recado claro para os partidos e para o governo: ainda não pusemos em prática um projeto para engajar os jovens na construção de um novo país. Não sei que impacto pode ter, mas espero que ele venha, porque só pode ser um impacto positivo. Ele disse que a agenda do PT durante o Governo Dilma deve ser ação política, regulação dos meios de comunicação e juventude. E nós temos dificuldade ainda, no partido, de dar o devido reconhecimento a trajetórias que tenham sido construídas nesse tema. É natural que o sindicalista trate das questões trabalhistas, que o ambientalista fale de sustentabilidade; reconhece-se que a diversidade de trajetórias pessoais favorece a legitimidade do partido, e que as disputas por espaço, inclusive, são parte legítima desse contexto, mas ainda é tão raro ver um jovem ser ouvido ao falar de… juventude.

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